segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Estamos compondo uma bela história cultural nesta cidade, venha para o nosso lado! Cultura só faz bem!

Maestro, compositor, poeta e trovador José Maria Mangia (Bahia) - no Massa&Cia


          A poesia está em alta na cidade poema.  O maestro e poeta José Maria Mangia  (Bahia) acaba de lançar,“Meus Ra-biscos”, composto por trovas e poemas. Também por este motivo, foi com ele o “AO VIVO!” desta edição. Aconteceu no Massa&Cia, no dia   30 de junho deste, através da parceria  Saudável entre a Sala de Ensaio e representantes do comércio fidelense. Poetas como Pedro Emílio, Ana Regina, Ronaldo Barcelos, Berenice Seixas, Quézia Lins, Maria Lúcia Fernandes, Ângela Pires que também cantou acompanhada  do irmão Miltoerley, iluminaram ainda mais a noite do Bahia, com declamações e debates. Nossa, como cultura faz bem! Massa&Cia - Sabemos que ainda não lançou oficialmente o seu livro “Meus Rabiscos”, seria uma imensa honra para a Sala de Ensaio e o Massa&Cia fazê-lo nesta oportunidade, o que acha?
Bahia - A honra é toda minha, por isso, assim então será feito.
(Nesse momento iniciou-se a noite de autógrafos)
Massa&Cia -Como se sente vendo seus trabalhos organizados e impressos em formato de livro, quer dizer, pronto para o acesso das pessoas?
Bahia - É bom demais, apesar de não ser o meu primeiro livro, pois  escrevi uma novena que, impressa por responsabilidade da igreja, trouxe-me, pela primeira vez, esta sensação inexplicável. Agora, está acontecendo de novo. Lançar um livro vai ser sempre lançar um livro.
Pedro Emílio – Eu tenho essa novena.
Ana Regina – Eu também! Inclusive, é escrita em linguagem culta e de forma correta, que é o mais difícil, nos dias de hoje.
Massa&Cia -Do maestro Bahia, como todos conhecemos, surge o poeta. A música sobrepujava a poesia ou a poesia é realmente nova?
Bahia - A minha produção de poesia não é nova, porém, como maestro eu aparecia mais. Agora, como estou meio que aposentado da música, chegou a vez das trovas e dos poemas.
Massa&Cia -Trovas, estilo, para muitos, considerado o bicho papão das construções literárias; há um motivo especial para cuja escolha?
Bahia - Primeiramente o gosto, depois a importância da preservação desses estilos pouco exercitados na atualidade. Meu professor Antônio Roberto dizia que todo trovador é poeta, porém, nem todo poeta é trovador.
Creio que devido as limitações exigidas pelo formato, dificulte a construção, já que toda mensagem da trova  tem que caber em apenas quatro versos rimados entre si (primeiro com terceiro e segundo com o quarto) e  metrificados em sete sílabas tônicas, cada.
(Bahia disse isso em resposta à Professora e Poetisa Ana Regina que confessou não conseguir trovejar, embora veja a trova como um formato literário atualíssimo, devido ao período de “urgências” que o mundo atravessa e pela brevidade que o estilo reza, tal como pede a presente era dos computadores. Sobre o que, o Ronaldo Barcelos disse que sabe de tudo isso, mas as grandes poesias trouxeram até nós jovens de vinte poucos anos como Castro Alves e Noel Rosa)
Massa&Cia -Ventilou-se, certa vez, que você ministraria um curso sobre tais estilos, através da Academia Fidelense de Letras é verdade?
Bahia - É verdade. Ainda estamos amadurecendo a idéia.
(Os presentes escolheram do livro ‘Meus Rabiscos”, trovas e poemas e leram em homenagem ao autor. Destacamos o  poema “ Saudoso Bar Sete” escolhido pelo confrade Pedro Emílio, para ilustrar o belo momento)
Que Saudade do Bar Sete
nos meus tempo de  pivete!
O doce caldo de cana
no fim de cada semana.
Veio o tempo de rapaz...
A cerveja? Lá por traz.
E  assim se passaram os anos
amores e desenganos.
Era ponto dos encontros
e também dos desencontros.
Foi o tempo dos licores,
dos encontros com os amores...
O vinho de jenipapo
animando sempre o papo.
No tempo de Virgulino
que ao tomar outro destino,
lhe deram o nome de América,
só por questão de  genérica.
Hoje, velho bar de outrora
quem nesta cidade mora,
ficou  triste com sua  morte.
“Tornou-se o ponto da sorte!”
Massa&Cia -Fale um pouco da Academia que preside.
Bahia - Antes, quero aproveitar para convidar a todos para um Café Literário em homenagem ao Silmar Barcelos Pontes, o dia 14 de Julho, no Anfiteatro da Biblioteca Municipal Corina Peixoto, quer será realizado por nossa Academia.
É importante dizer sobre a referida instituição, que a compõem trinta e dois membros, que apenas uns dez é que pegam firme, mas nem por isso  ela deixa de ter a firmeza de cumprir os seus propósitos. Uma outra coisa é que continuamos sem sede, embora haja uma promessa do atual prefeito em conseguir uma sala para nós. Estamos esperando.
Massa&Cia -A entrevista com o Gustavo aguçou ainda mais minha curiosidade, qual é a responsabilidade de um maestro?
Bahia - Um velho professor de música me disse que a maior delas é  não atrapalhar a orquestra.
Brincadeiras a parte, o maestro  responsável não só pelo bom andamento musical mas também pela expressão e motiva da música. Ele tem que ser capaz de promover essa transformação.
Massa&Cia -Como se torna um maestro?
Bahia - Bom, primeiro vem o talen-to para tal, depois o estudo. Eu comecei a estudar música em  52, com o m°  Sebastião Pontes: artinha, solfejo... Depois ele veio a falecer e veio o Fidélis Telles. Aprendi a tocar bombardino, o mesmo instrumento dele. Em 64 fui para Niterói. Lá compus por   10 anos a Banda Sinfônica Portuguesa – mº Alves Pita, formado na Europa,  aprendi muito com ele, sobretudo os clássicos.  Depois, fiz conservatório em Niterói... Eu não  perdia um curso de música. Entre os quais, o de  regência para coral com Maria Ernani Aguiar, onde fui avaliada pelo Maestro Gerra Peixe (Pai); regência de orquestra e harmonia e banda como o mº Sérgio Dias.
Fiz o concurso para músico da PM, eu entraria como sargento. No  naipe, passei em primeiro lugar, no geral em quarto. Mesmo assim tinha que fazer o arrochado curso de música da polícia.  Após trinta anos integrando aquela banda, me tornei maestro da mesma.                                                                                                                                                                                                                                                                   
Massa&Cia -Fale um pouco das suas composições.
Bahia - Olha, eu compus mais ou menos umas cinqüenta músicas; dobrados uns dez.  Há também valsas, sertaneja, temas para piano, arranjos para bandas e orquestras e coisas que nem me lembro mais. Entre os hinos estão o do TG 3  e o em prol dos duzentos anos da Matriz de  São Fidélis.
Massa&Cia -Preferências musicais: estilo, época, compositor...?
Bahia - Embora tenha preferência pelas clássicas, eu ouço de tudo, o samba, o choro que é uma música genuinamente brasileira, a chamada mpb... Minha única objeção é que tenha música na composição, o que hoje não  é muito exigido por alguns estilos.
Miltoerley – No caso do Funk, a maioria deles não seguem afinação.
Ronaldo Barcelos – Não considero isso uma música, mas sim uma agressão incabível.
Ana Regina – Outros estilos de músicas como o funk também tiveram dificuldades para se estabelecerem como arte e depois viraram patrimônio nacional, o samba é um deles.  Quero dizer que essa aversão a um tipo de música já aconteceu outras vezes. A música funkeira é produzida por pessoas que recebem lixo, então é muito entendível, que eles o reproduzam em suas manifestações artísticas. Mas nem todo funk é assim, fui a um baile um dia desses e não fui chamada de cachorra e sim de princesa.
(Ronaldo replicou reafirmando sua posição. É, porém, uma discussão a  ser decidida pelo leitor).
Massa&Cia -Fale um pouco sobre aquela orquestra, à qual levou e elevou o nome de São Fidélis por muitos lugares.
Bahia - Quando voltei a morar em São Fidélis, o então presidente da Associação musical 22 de Outubro, Pedro Mariano, me chamou para regê-la. Aceitando, dei a ela um estilo de orquestra. Daí, ganhamos vários primeiros lugares em concursos promovidos  pelo Ministério da Cultura e  Secretaria de Estado de Cultura, pelo Brasil
Foi a época de ouro da 22, que tinha músicos como o Delinho, Pedroca, Célio, Luiz Paulo, João Branco, Ìndio, Jairinho, Timóteo e outros igualmente importantes.
Depois, fundei a Filarmônica Fidelense, em 86. Onde também recrutei muitos músicos, ensinei e ganhamos também muitos prêmios.

A Teatróloga Nena Theóphilo no Massa e Cia

 “Eu tenho um livro de cabeceira que eu adoro! É do Augusto Boal, um grande dramaturgo que infelizmente já é faleci-do. E tem um trecho dele que diz mais ou menos que todos nós somos atores. A partir do momento em que a gente nasce, desde o momento em que a gente acorda todos os dias, até a hora em que a gente vai dormir. Nós estamos atuando em todas as horas do dia, estamos sempre em cena. E o teatro envolve todas as artes! Eu acredito também que ele seja o formador do ser humano. Quando eu tenho um projeto de peça, fazemos pesquisa sobre aquilo. No “Góthic”, por exemplo, os atores queriam saber sobre, porque para as pessoas o gótico é pejorativo! Então, fomos pesquisar, e vimos que existia um monte de coisas que envolvia aquele tema. Existia uma postura, uma arquitetura, uma literatura... E o teatro é isso, uma cultura geral! Ele é formador para sua educação como pessoa, para sua trajetória de vida... Você aprende a ceder, porque tem que entender os seus limites. Porque quando estamos em cena, existem os outros atores, você tem que aprender a respeitar o espaço, a hora da fala, os limites de cada um...                                                    NenaMassa&Cia - Nena, de onde vem a sua experiência teatral?
Nena - Minha maior experiência vem do GATIG, que é o Grupo de Artes e Teatro da Ilha do Governador. Fizemos várias peças no Rio, vários trabalhos. Tenho curso de direção; de escrita de peças. Porém acredito que não adianta fazer um monte de cursos e não gostar do que faz, porque vamos aprendendo é com o dia-a-dia. A cada peça é uma nova direção, um novo elenco, uma nova experiência que adquirimos. E aprendemos muito com os atores.
Massa&Cia - A prática teatral em São Fidélis é muito diferente da que você era habituada?
No GATIG tinhamos muito apoio, o ex deputado José Richard que é fidelense,  morador da Ilha do Governador e tinha um jornal, sempre apoiou o GATIG. Se tivesse na cidade de São Fidélis um apoio maior...!
Massa&Cia - Quantas peças já montou em São Fidélis?
Nena - “Loucolópolis”, escrita por mim, que foi apresentada no Cine Teatro e foi um sucesso absurdo, tivemos 1000 espectadores. Embora chovesse muito, tivemos que dobrar as sessões. E eu fiz uma promessa que a minha primeira peça seria beneficente. E foi, para a Apae, Pestallozzi e Lar dos velhos. Depois, nós fizemos “Ghótic”, que foi uma peça muito bonita, fizemos também Aposte o poste, e agora, nós estamos com outro projeto: Reunião de Fadas. É uma peça infantil, para o mês da criança, de autoria do GATIG, cujos direitos autorais nos foram gentilmente cedidos. E, se Deus quiser, se houver tempo, em dezembro a gente vai fazer também “Dim-dom”.
A proposta do GARTE era fazer uma peça por ano, mas, Chocolate sabe, o quanto a gente trabalha na elaboração de uma peça para uma temporada de três dias.
Massa&Cia - Quais os maiores empurrões para frente recebidos aqui?
Nena - O comércio. Que no início, com certeza, ficou um pouco com um pé atrás, mas,graças a Deus, o grupo trabalha com muito empenho. Eles são adolescentes responsáveis. Eu tenho que passar uma confiança para os pais, então, fico sempre atenta às notas da escola. Eu sempre digo a eles que primeiro o estudo. O GARTE é uma diversão com responsabilidade, e também, se nos propomos a fazer um trabalho, que ele seja mega bem feito, porque é o nosso nome que vai. Devemos isso ao público e também ao comerciante que acredita no nosso trabalho. Lembro-me que em “Loucolópolis”, chovia muito, mas a fila lá fora era enorme, tivemos que fazer duas sessões por dia. Então, Temos um espaço na biblioteca, mas conseguimos um na Associação Comercial para ensaiarmos nos dias de frio, de chuva... E como estamos agora num processo de marcação de cena, e lá tem sido um espaço muito útil.
Massa&Cia - Quantas pessoas no grupo?
Nena - Hoje aqui tem bastante gente do grupo, mas nós somos em mais ou menos 25.
Eu tenho atores maravilhosos!
Massa&Cia - Quais os maiores obstáculos?
Nena - Eu digo sempre a eles, quando estamos com um projeto que as duas respostas que nós vamos receber é sim e não. Então vamos nos preparar para as duas. Se for sim, ótimo, se for não, beleza. A gente vai correr atrás, vai tentar de novo... Mas o pensamento é sempre positivo!
Massa&Cia - Muitas histórias inusitadas de montagem?
Nena - Ah, muita coisa! Acontece muito assim, em ensaio, né? Eu fiz até, um making- off dos ensaios de um trabalho que a gente fez! Ficou bem legal!
Massa&Cia - Quantas pessoas já envolveu nessa ação?
Nena - Bastante! Acredito que umas 50 pessoas! Só que muitas foram embora por causa de outros projetos, né?... Faculdade, trabalho...
Massa&Cia - Destaques?
Nena - Não! Para mim todos eles sempre se destacam. Nós somos um grupo muito aberto, todos dão sua opinião! Agora, em “Reunião das Fadas”, por exemplo, como a gente vai trabalhar com criança, que é um público que é mais impaciente, o Juninho, que ficou com a parte da direção de arte,  vai colocar músicas antes do espetáculo para entretê-las; o Dirley Braga, que vai fazer a parte da edição, já que no Cine Teatro, vamos utilizar também o telão como recurso; a Camila Crespaumer fica com a parte da captação de recursos; a Milaine... Todo mundo faz uma coisinha!
Massa&Cia - Você, que além de diretora é atriz, tem muitos personagens engraçados, de trejeitos marcantes, pode falar um pouco deles.
Nena - Bom, em “Loucolópolis” eu fiz a Dona Noca. Foi muito engraçado!  Dona Noca era uma viúva cheia de trejeitos, que sustentava os três filhos vendendo toalhinha de prato. Batia no guarda, xingava a prefeita! Para compor a personagem, usei uma saia comprida da minha mãe, e a coloquei bem alta; para segurar essa saia, eu tinha que ficar com a barriga estufada. E ela usava também um lencinho branco na cabeça, uma pintura bem estranha no rosto; aonde ela ia, ia gritando, carregando aqueles filhotes dela... “Vamo embora filhotes, vamo embora...” Com aquela voz bem engraçada... (risos).
Massa&Cia - Se não aparece na televisão não é artista, então você tem que ir para o Rio ou para São Paulo, Pois ouvimos que só a arte praticada em seus domínios é importante. A Sala de Ensaio diz que a arte feita aqui também é im-portante. É por isso que estamos aqui: para dizer que a sua arte é impor-tante. Porém, será uma grande perda de tempo a Sala ficar dizendo isso sozinha. Você concorda que se esta cidade quiser pode escrever a própria história cultural?
Nena - Eu acredito muito nisso, Chocolate. Gosto muito de lidar com jovens: a cabeça, os projetos que eles têm para vida... É claro que existem adultos que não têm paciência para escutá-los: os sonhos, as angústias, o sofrer, a alegria... Porque isso tudo faz parte da vida. Eu acho que nós, adultos, temos essa obrigação de sentarmos para escutar esses jovens. Eu já fiz isso com o pessoal do grupo, como exercício, pedi para que cada um sentasse, e escrevesse o seu texto... Eles são capazes! São Fidélis tem essa capacidade, só não tem o apoio que deveria ter.
O meu sonho, é que um dia nós possamos ter uma casa cultural, um espaço para que eles desenvolvessem todas essas possibilidades de cultura; teatro, música, dança, poesia... Eles precisam disso! E acho que se a gente tivesse esse espaço aqui, muitos não estariam seguindo outros caminhos... Não aconteceria tanta coisa que a gente vê, e não gosta. E eu não gosto de tapar os olhos. Não acho bacana.
Massa&Cia - Considerações finais?
Nena - Quando cheguei a São Fidélis, até mesmo por ter vindo de uma cidade grande, eu dizia que eu não viveria aqui.  Hoje, vejo que tive de crescer, amadurecer pra reverter esse pensamento. Porque é lógico que vamos aprendendo. O que a gente viveu, aprendeu há cinco minutos, já conta como experiência! Então, eu tenho que agradecer a acolhida que tive. É uma cidade pequena, e a gente sabe que não tem essa cultura toda difundida como deveria ter, mas isso, também já envolve outras questões, como política, que é um assunto que eu não quero abordar agora, porque não cabe. A proposta aqui, é o que a gente faz, e de uma maneira bacana, limpa. E eu não me arrependo de um dia, ter pensado daquele jeito, porque tudo isso me fez dar essa volta por cima, e o sentimento que eu tenho hoje é de reconhecimento, de agradecimento aos fidelenses, ao grupo, aos comerciantes, à você Chocolate, pelo espaço, enfim, a todos aqueles que acreditaram no meu trabalho!
E aproveitando também essa oportunidade, gostaria de já deixar aqui o meu convite a todos: Não percam nos dias 8 e 9 de outubro, no Cine Teatro, “Reunião de Fadas”! Com certeza também vai ser muito bacana e vocês vão adorar!

Massa&Cia - Nesse momento entra em cena uma das integrantes do ‘Garte’.
Camila Crespaumer:- Como nós fizemos 6 anos de grupo, mas ainda não comemoramos, gostaria de falar que, em nosso aniversário, o maior presente é ter a Nena ao nosso lado, dando todo o seu apoio, ensinando, educando... Porque o teatro também nos educa, né? Então, fica aqui o nosso carinho!
Massa&Cia - Dizendo isso entregou para ela os presentes em nome do imenso grupo de teatro.
Registramos as presenças de Janete; Cristóvão Spala e família; Elaine, Dirª do Pré Escolar; Orlandinho; Presidente da AFL
José Maria Mângia e esposa, sônia Sota, Luzia Abreu, Fernando Abreu e esposa, Dr. José Marconde Filho; o novo poeta Willian Raposo; Calos Quintan (Nano); Euclymária e o grande Garte.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ulisses Evangelista, Milene do Garte e Célia Furtado

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A "Iniciativa em favor da cultura fidelense" é espaço, tanto para experientes talentos como Célia Furtado quanto para novos, como Ulisses e Milene.

O cineasta Noilton Nunes

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Noilton esteve em São Fidélis, com as Caravanas Euclideanas, mostrando o seu filme 'Manhã Dourada", sobre a vida do, também nosso, Euclides da Cunha e disse, em poucas palavras, o que, há muito, tentamos dizer.

Rony e "Rei" no Bella Carne


Rony Oliveira, o mesmo que nos fala através das Rádios Coroados, está nesta cidade há 14 anos, e já fez até teatro com a Sala de Ensaio quando era ainda o Grupo Experimental de Teatro Amador de São Fidélis, interpretando o advogado Lutécio Côrtes, na peça “Em quantas Maneiras eu Posso Dizer que te Amo” de Geraldo Evangelista. Se ainda não é daqui, suas músicas já o são, porque é o lugar onde ele esculpe, lapida e as expõem para a nossa avaliação. Suas composições têm o cheiro e a alma de São Fidélis e não poderiam ser de outro jeito, já que é aqui a sua vida.
Vai colocar no CD, “São Fidélis Voz e Violão” – projeto experimental, a música “Ciranda de Estrelas”, de autoria própria. Emotivo, abriu a cara no dia do Registro Cultural da sua competência artística. Que lágrima boa, a oportunidade para demonstração de capacidade pôde produzir!
Roqueiro já conhecido das noites fidelenses, pois, há muito, toca em nossos bares, teve, pela primeira vez, uma platéia, para apreciar não reproduções musicais, as quais, diga-se de passagem, o cantor faz muito bem, mas a arte genuinamente produzida por ele, essa não tem preço. Vai participar do CD São Fidélis Voz e Violão – projeto experimental da Sala de Ensaio em parceria com a Escola de Música Esplendor, a música Ciranda de Estrelas, de autoria própria.

“Rei” Guida, conseguiu deixar muita gente boquiaberta, primeiro pela qualidade dos desenhos expostos; segundo pelo fato do seu talento não ser ainda do conhecimento do grande público, “Caramba! Não sabia que ele desenhava assim não!”. “ O cara é o bicho, heim..!” . E nós da Sala estamos cada vez mais felizes com a utilidade do espaço que abrimos para os nossos artistas. Nossa!!! Como cultura faz bem!!!
O que chama a atenção em "Rei", é que ele, apesar de, possui um público cativo, do qual goza de um prestígio, cujo privilégio é de poucos. Sem contar com o seu senso de cooperação para com o evento, confeccionando e entregando os seus próprios convites e arrumando do seu jeito a exposição das suas obras. Reinaldo é gente que soma culturalmente.
Como temos dito, as platéias que se têm feito presentes nos eventos da iniciativa em favor da cultura fidelense, não é exatamente da Sala de Ensaio – embora, haja pessoas que, por assimilarem e torcerem pela proposta do nosso trabalho, têm vindo à todos os eventos -  mas do artista em questão. “Rey” e Rony fizeram sair de casa, naquela terça feira gente que só o respeito e a sensibilidade o podem fazer. A cultura começa a mover esta cidade.



Vicente de Paula e José de Arimatéia no Bella Carne




 Não era um momento comum, como aqueles em que o cantor é um animador e nós, platéia, decidimos o repertório, como se numa maquininha, só que sem moedas. Era um momento de respeito à arte que o artista trouxe para mostrar. E essa “nova” concepção que  reinventa o artista tanto quanto a platéia fidelense, pelo menos em relação a arte gerada aqui, foi assimilada de tal forma, que pareceu ser tudo apenas um lembrete, pois os presentes mereceram naturalmente toda a dedicação dispensada pelo artista ao se preparar para eles. A conclusão imediata é de que toda a distância que ainda há entre a nossa arte e a nossa vida é causada apenas pela falta de iniciativa.
Diga-se de passagem, é um crime a cultura artística representar tudo que representa no mundo e músicas como as do Vicente ficarem guardadas por falta de incentivo e espaço.
Neste blog, a música "Deixa eu te ter" de sua autoria que está sendo gravada para fazer parte do CD "São Fidélis Voz e Violão - Projeto Experimental da Sala de Ensaio em Parceria com a Escola de Música Esplendor.
Quanto aos quadros surreais e abstratos pintados por Arimatéia, cuja diferença entre os estilos foi muito bem explicada pelo artista, acreditamos que doravante ele vai perder o sossego, ainda mais depois de ter dito não cobrar por sua arte, apesar da retificação feita por sua musa e esposa Adriana com relação aos custos das tintas e da tela virgem.
Nós da Sala de Ensaio, que consideramos arte um trabalho digno e queremos disseminar essa idéia, achamos que os quadros dele podem ser vendidos sim. Há em São Fidélis, várias lojas que comercializam esse tipo de arte, muitas vezes, sem atentar para a genuinidade ou até mesmo para a produção em série, e as pessoas compram e penduram em suas paredes. Por que não comercializar também os quadros pintados aqui e de genuinidade comprovada? Os nossos ambientes ficariam muito mais elegantes.
Só que aprendemos por força a dizer mal do que é nosso. Isso é outra coisa que precisamos extirpar. Saíram do Bella Carne, no dia 22, muitas pessoas orgulhosas da arte fidelense.

Vídeo - Vicente de Paula

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

A poesia de Ana Regina Soares Ribeiro no Peperoncini


Meu Deus! Quando nos damos conta de que só faltava crença em nossa cultura para mostrarmos, já nos primeiros passos, que, com ela, poderemos ir longe, vemos com gosto amargo de perda a quantidade de tempo passado. Pois esta cidade poderia, nesse quesito, estar muito à frente.
Mas como a hora é sempre certa, a bandeira, em favor da mulher, levantada por Ana, dá à literatura desta uma causa, uma verdade, uma catapulta, cuja função e arremessar autora e obra nos patamares das imprescindibilidades sociais. O alto nível é garantido pela mescla de talento e bagagem cultural; o equilíbrio entre a clara fé e os espinhos das históricas verdades religiosas, da craque poetisa, faz-nos privilegiados, pois o ângulo de visão que  nos abre, a respeito de, é o que podemos, entre tantos outros ótimos adjetivos, chamar de transgressor.


ABRIL REVISITADO
Em matéria da mais legítima fé
Foi feita a argamassa
Da qual se ergueu o majestoso templo
De mais de 200 anos
Traduzido em grossas e seculares paredes
Plantadas em forma de cruz,
Fazendo permanecer
Nos corações de todas as gerações
O sonho e o ideal
De Lucca e Cambiasca.

Assim é a nossa Igreja Matriz:
Não apenas um monumento,
Mas a paisagem viva e presente
Do mais puro e cotidiano
Sentimento fidelense
Eternizado em afrescos e vitrais.

História e histórias se confundem
E nas tardes dos sábados que jamais voltarão
Um alarido de crianças e andorinhas
Estará para sempre pousado no seu adro
E também nas nossas memórias.



Junto das minhas lembranças,
Sinto até hoje o pavor do inferno
Com sua horrenda Serpente de Sete Cabeças
A ameaçar aqueles que - como eu -
Jamais traziam a lição do Catecismo de cor.
E, a essa altura da vida, como me valer
Da proteção eficaz do cântico abafado dos benditos
E dos anjos pálidos que
Voejam solenes sob a imponente abóbada?

(Mesmo assim,
Como cheira a incenso essa saudade que não passa!!!)


ÁLBUM DE FAMÍLIA

Surpreendentemente
Tia-avó:
Daqui a pouco
Me pegarão de jeito
O reumatismo
A insônia
A incontinência urinária
E as manias quizilentas
Da terceira idade

Ou terei sido apenas
Uma tia-avó a tempo e à hora?
Que privilégio ter a jovialidade
E o mesmo destino e missão
Que foram designados
Singularmente para aquelas almas
Que se deram o luxo
De serem investidas dessa vantagem
Mormente concedida às freiras
E depois às damas crepusculares
Que, olhando a vida gasta
De suas janelas empoeiradas,
Desfrutam do alívio egoísta
Somente sentido pelos seres
Que foram libertados pela solidão

Tia-avó!
Para isso nasci!
Para isso vim ao mundo!
Ser um pouco de tudo
Ou, de tudo, esse quase-nada
Imprescindível e necessário
Tia-avó:
Muito mais que uma característica outonal
De repente ensinou-me o tempo
Possuir essa capacidade
Esse dom – condição inevitável
Das mulheres que sempre serão esquecidas
Mas que nem por isso
Deixarão de amar
Com um amor sempiterno e descomunal
Dinastias e mais dinastias
De filhos dos outros
Sem no entanto exigirem em troca
O lugar de destaque
No álbum da família


QUO VADIS
A uma hora dessas, por onde andará a coragem de José Saramargo, esse varão assinalado, órfão convicto de Pai, Filho e Espírito Santo?
- Nem à Direita do Onipotente, nem no Quinto dos Infernos, nem na Península Ibérica, nem no mais alto dos Olimpos, nem no Purgatório, nem no Limbo, pois ficou sem lugar para se esconder na última hora.
Ora, pois: eis que a alma incrédula de José Saramargo não está penando e nem vagando por aí, se acha devidamente morta e sepultada (como ele mesmo queria), e, por certo, se recusará a ressuscitar ao terceiro dia. No máximo, atravessará o Atlântico e pousará em alguma página esquecida e amarelada na estante do Real Gabinete Português, para disputar a atenção de algum estudante de Letras ou a cobiça desenfreada das traças famintas.
Por ter-se autolibertado de todos os pecados, culpas, castigos e perdões, José Saramargo também não merecerá a misericórdia solidária e nem a paciente devoção dos negros véus das idosas carpideiras de Trás os Montes e da região do Alto Douro em sua inabalável fé pela volta de Dom Sebastião.
A uma hora dessas, aonde é que foram parar o cinismo, o talento e a dignidade de José Saramargo?
De que lhe adiantou o privilégio de bastar-se a si próprio, desdenhar das esperanças cômodas e se queimar no fogo eterno das transgressões? (Agora, que tudo é pó, é cinza, é nada).
De que lhe adiantou não ter sido covarde e ter escolhido a solidão, menosprezando a prática e confortável companhia de deuses, luciferes, demiurgos, ovnis, manipanços e fogos fátuos?
De que lhe adiantou ter escrito o seu caminho a próprio punho, descoberto todos os segredos proibidos e zombado da crença de uma outra vida?
De que lhe adiantou o estoicismo de sempre ter sido minoria, se os efeitos-placebo e as indulgências plenárias continuarão sendo empurrados goela abaixo da abominável unanimidade dos homens comuns?
De que adiantou, enfim, ao senhor José Saramargo, se imolar pela humanidade, se, nós, os mortais, partícipes da Grande Farsa da Mediocridade, ainda nos trocamos pelo cotidiano previsível das 30 moedas de alívio produzido pelas decências obrigatórias?

A incrédula (e heroica) alma de José Saramargo
Teve sua morte decretada no ano de 2010 da era cristã
E apenas jaz na vala comum do goglee
Como qualquer outro pobre coitado do século 21.
(Nem todas as gerações o chamarão de bem-aventurado por isso)
E como ele mesmo pediu:
Que Deu também não o tenha!
E ponto final.

São Fidélis, 10/07/10

DIA DAS MÃES

Sim. Sou muito mais que um corpo.
E sendo mais que tudo isso,
Sou uma alma feminina em plenitude
(Matriz/Motriz
Verdadeira essência do gênero humano)
Que se recusou a ser usada.
Certamente hoje não serei comemorada
Porque simplesmente
Desdenhei da nobre missão
De garantir o sustento da perpetuidade
E de todos os beneplácitos atribuídos
Às fêmeas da espécie.

Por pura preguiça
(ou mesmo por raiva),
Me dei o direito de seguir o exemplo
Das belas árvores secas
- estéreis por opção -
Que jamais serão exigidas
Em suas obrigações de estado
E demais privilégios sucessórios.
Além do fruto,
Além do ventre,
Bendita seja essa minha recusa
Ao dever de ofício
De amamentar posteridades,
Despindo-me completamente
Da vantagem de ser confundida
Num 2º domingo de maio qualquer
Com um mero objeto de decoração.

IN ILLO TEMPORE

Recado à filhas das filhas
Das Filhas de Maria
E a quantas mais gerações
Que possam vir se estagnar
No obsoleto da posteridade:
Sei que duvidam
Que um dia elas existiram
- naquela época ainda não se falava
Em sentimentos fertilizados in vitro
Ou emoções traduzidas por código de barras –
Elas existiram sim
Elas existiram assim
Anjos travestidos de mulheres
(todas irretocáveis em seu costume de fustão
Manga três quartos engomado em branco sem fim
Até o tornozelo: absurdamente insuportável
Para esse calorão de São Fidélis!)

Mas (creiam-me!)
Elas existiram
Elas existem,
Aquelas vestais
Sacerdotisas etéreas
Venceram a vida e a morte
E muito mais que reminiscências
Ainda insistem no meu hoje
Com o frescor repetido
Do eterno que sempre se renova
Contraditoriamente
Através do co irrecuperável
Desse cantochão que tem o ritmo
Lento e contínuo
A me revelar a permanência e o insondável
Das surpresas já vividas

Bem que tentei.
(Que vontade de acompanhá-las
Nos cortejos festivos
Dos primeiros domingos:
Zilá, Bebezinha, Dona Nadir Assis,
Chica, Carminha, Dona Jove, Darcy, Penha e outras tantas...)
Porém, meus passos jamais conseguiram alcançá-las
E elas se foram. Todas elas.
Solenemente em procissão definitiva se foram.

Partiram para sempre
As guardiãs do templo
E do tempo/daquele tempo
Que restará intacto e presente
No interminável e absoluto
Dessa minha história de abandono e resignação.
E eu, personagem inútil e obscura,
Tornei-me um elo de impossibilidade,
Sou o que soçobrou desse mergulho confuso e inevitável
No mar desbotado do azul
Dessa velha fita de cetim
Que ainda guardo na gaveta
E no coração.


NOIVAS

Primeiro vem um buquê para todas elas:
Esse troféu cobiçado.

Flor-de-laranjeira
Branca que branca
Salpicada na cabeça.

Depois, marcha nupcial,
Vestido de renda francesa legítima,
Seda pura farfalhando em passamanarias,
Padre, sermão,
Alianças de ouro maciço
E querubins barrocos.

Um bolo de três andares,
Valsa, presentes, flores, champanhe
E uma lua-de-mel bem melosa.

Pronto:
O que mais falta para o enterro?



PLÁGIO OU PARÁFRASE?
Cultuados ao longo da história, assim os mais célebres e respeitáveis machos da humanidade
trataram as suas mulheres:
Adão, num rompante de covardia, colocou toda a culpa em Eva.
Abraão reduziu Sara à efêmera condição de um ventre estéril.
O Rei Davi, traindo a sua esposa, utilizou-se do seu poder de governante
para surrupiar a mulher do próprio amigo.
Salomão – um galináceo assumido – só se preocupava
em tornar infinita a sua propriedade de tesouros e vaginas.
Ulisses sumiu pelos sete mares e deixou Penélope por vinte anos a ver navios.
Freud enlouqueceu Anna, que acabou por perder a paciência
a cada paciente experimentada pelo famoso psicanalista.
Charles foi réu-confesso da bulimia e da depressão de Diana.
John Kennedy suicidou Marilyn Monroe.
Clinton, no auge no cinismo, expôs Hillary a notório e público vexame.
JK soube usufruir, com a elegância dos oportunistas,
tanto do prestígio da família de Dona Sara
quanto da beleza das jovens e descartáveis amantes que teve.
Já Getúlio preferia curvas e pernas de vedetes
à integridade e à retidão de caráter de Dona Darcy.
Dom Pedro I aliviava as suas crises de priapismo em imperatrizes,
domitilas e tantos quantos orifícios triangulares lhe aparecessem.
Prestes se prestou a papel miserável de entregar Olga aos nazistas.
Rodin usurpou o talento e infernizou a vida de Camille Caudel.
Oswald de Andrade não foi fiel nem a Tarsila e nem a Pagu.
Woody Allen, de maneira leviana e acintosa, desonrou o lar de Mia Farow.

Meninos, varões, mancebos, rapazes, senhores, anciãos
e demais seres pertencentes à raça masculina,
sinto muito por não lhes poder dizer:
“Mirem-se no exemplo”.
( CANTAR A MÚSICA “MULHERES DE ATENAS”)


DE-MENTIRINHA

Quem será mesmo o Terceiro?
- Igual ao Primeiro.

Eu quero mais é me levantar sozinha
Quando caio ou vou ao chão
Eu não sou feito Teresa
Enfeitada em laço e fita
Esperando em laço e fita
Os seus cavalheiros acudirem
Todos três de chapéu na mão

Quem será mesmo o Terceiro?
- Igual ao Segundo.

Não tenho medo de cair de novo
Eu não sou feito Teresa
Casada e cansada
E que agora só serve
Para fazer a limpeza
Da sua bela casa portuguesa
E que tão enfeita
Às vezes a cama e sempre a mesa

Quem será mesmo o Terceiro?
- O Terceiro foi aquele que a Teresa deu a mão.

(Mas, a quem, na verdade, ela deu seu coração?)


DOIS DE NOVEMBRO

O tempo amanheceu abafado
(Como em todos os anos)
Neste 2 de Novembro.
E, mais uma vez,
Será voz corrente na cidade
A profecia de que
“Todo Finados chove”.

Em direção à Rua da Igualdade
Sigo em companhia
Dos demais sobreviventes
Da raça terráquea
Para os preparativos
Do ritual vigente
Das exéquias e flores
Que evocam a ancestralidade
E todos os sentimentos passadiços

Requiem aeternam
Donna eis Domine
Et lux perpetua
Luceat eis

Devo dizer ainda
Que esse gesto anual
E quase mecânico
De limpar túmulos e lágrimas
Fez-me acostumar às perdas e pedras:
Sinto a rigidez das tristezinhas assumidas e anestesiadas
(Como um incômodo natural e passageiro)
Além do cheiro forte característico
De velas e vidas que se gastam
A diluirem-se no vapor
Emanado pela quentura das lápides
E pela certeza da finitude humana

Nesse momento insisto
Em me perguntar sem susto e sem drama
Se serei a próxima
A hospedar-se em definitivo
Na quadra 16, número 1017
Do endereço da última residência
Da família Soares Ribeiro
E me basta a consolação
De saber que mesmo depois de mim
Continuará sempre amanhecendo abafado
(Como em todos os anos)
O 2 de Novembro



IN-DEFINIÇÃO


Sim.
Eu sou Ana, a Bolena,
Madalena que não se arrependeu.
sou Crécy e Bovary,
Lucrécia, Maria Louca
e Santa Teresa D’Ávila.

E quanto mais me insisto,
acho-me espalhada e espelhada
em bordeis e abadias,
mercados e confessionários,
inferninhos e procissões.

Por séculos e mais séculos
vários varões vieram
arrancaram minhas roupas
sem no entanto descobrirem-me.
Fizeram-me ainda calar a boca,
pisaram na minha goela,
rasparam minha cabeça e meu cio
e me queimaram viva.

Alguns se casaram comigo,
outros se cansaram apenas.
Uns dormiram no meu colo,
muitos na minha cama.
Também fui virgem por decreto e mandamento,
embora tenha parido para a humanidade
todos os seus herdeiros e primogênitos.

Sou a femme fatale
que descalça e vestida em negro
usa cilício e reza as Matinas,
seduz querubins
e vomita sangue e sexo coagulados.

Sou a vestal do templo,
véu roxo de sacrário,
guardada a sete chaves,
amante de suseranos e marinheiros,
a mente das esposas caladas.

Sou a parte, sou o todo,
sou inteira e interina,
sou eterna e esquecida,
sou total e dividida,
sou dívida e pagamento,
sou dúvida e discernimento,
sou todas ou nenhuma,
morte, vida ou Severina,
céu, inferno ou limbo,
monja ou messalina:
E nas horas vagas de mim
busco a mulher que não me deixaram ser.



INVERSOS

Não serei o poeta de uma cidade caduca.
Não cantarei o Paraíba.
Não sonetarei padroeiros.
Nem irei mais às missas.
E em abril não farei roupa nova.
E tampouco sairei de casa
Para passear na praça.

Não farei as coisas necessárias
E previsíveis.
Não ensaiarei repetições.
E quando me procurarem
Estarei erma e solitária,
Mas estarei também atenta
À realidade morta e dolorida
De minha terra.
Por isso é bom dizer desde já
Que não me esperem.

(Quem me fará beber água de cicuta por isso?



LADAINHA


Mamãe faz a história da casa.
Mamãe faz a história da rua.
Mamãe faz a história do bairro e da cidade,
a história da país e do mundo
e não se dá por isso.

Mamãe pensa que é a responsável apenas
pela história da cozinha de nossas vidas
que continua sem parar bem amanhã de manhã
no barulho quase apagado
dos talheres se esparramando pela gaveta,
seguido de cheiro seco de café,
que penetra em nossa memória para sempre.

Mamãe constrói uma história destruída,
feita de muitas mulheres,
de outras mães vindouras e passadas,
que amamentam filhos
e uma luta silenciosa.

Eu digo à mamãe que ela é mais
que uma parideira,
mas elas fica quieta...


Mamãe – Nossa Senhora das Prendas Domésticas –
prende meus cabelos
e os seus desejos mais profundos.
Está na hora do almoço,
e antes, varreremos a casa.
As decisões fazem volume
embaixo do tapete.

Eu digo à mamãe que ela tem desejos,
mas ela me faz calar...

Mamãe fica tecendo em casa
enquanto papai se diverte
com as Calipsos lá fora.
Eu lhe pergunto quem é também o seu Ulisses
e ela me diz que não tem esse direito,
pois é obrigada a ser direita.

Mamãe abre o oratório:
a cera derretida das velas ainda vive...
As santas estão pálidas e virgens como sempre,
os santos dão do pau oco.
E as todas mulheres do mundo dizem amém por isso.
Amém nós todas.

Mamãe me ensina a lavar,
passar, casar,
cozinhar em banho- maria os ideais,
procriar sem gozar,
e a chorar tão-somente
quando corto cebolas.

Mas eu não fico pronta
como tantas que se vê
e fujo porta dos fundos afora.

Lá tem uma jaula imensa
e algumas fêmeas dentro dela:
umas estão quietas em sua condição de submissas
e se contentam com a ração diária,
outras estão enfurecidas e machucadas,
mas querem viver.
Então vejo que não estou só
e pulo todos os muros que encontro.


DE PROFUNDIS

Sem que me desse conta,
mataram a casuarina
do fundo do quintal

No fundo de mim,
quanta coisa já morreu
sem que me desse conta...



POEMA DO MEU AMOR

Meu amor não merece
Um verso,
Uma linha que seja
E muito menos a agulha.

Meu amor não deverá rimar
Com dor
Ou calor de beijos roubados
E nem com o menor sabor
(Que choror imenso!)

Meu amor não terá o mesmo,
O próprio de amor
Ou do amor-próprio
Dos namorados no portão.
Mas, amordaçado.

Meu amor permanecerá do intacto
Ao não-vivido,
Enquanto lá fora
Gatos perseguem beija-flores
E eu desisto de ser poeta.

Nem uma missa de réquiem,
Nem uma florzinha cinzenta que fosse,
Nem túmulo em memória
Ou história a ser contada
Da morte do meu amor.

Será apenas este segredo:
Meu amor é apenas um fantasma
Que perambula
Nas ruas da cidade.



UM POEMA E DUAS HISTÓRIAS


Feito náusea etílica
Aquilo que um dia chamei de amor
Curou-se tão logo aparecesse o sol
Anunciando um novo dia
(Não necessitando sequer de nenhuma espécie de covalescência
E nem de levar em consideração
As complicações hepáticas e emocionais
Advindas das histórias pregressas)

Assim pude eu
Pela primeira vez
Declarar assumida o efeito bulímico causado exclusivamente
Por esse vinho de péssima qualidade que foi você:
Tudo isso veio comprovar
Mais uma vez
Não só a importância de sempre se ter em mão
Um plano B
Como também reforçar
A tradicional e utilizadíssima
Filosofia dos bêbados inveterados
De que não existe nada na vida
Que um bom banho gelado
E um gole de café amargo
Não possam dar jeito

E a quem possa interessar
Ainda comunico em alto e bom som
Que estou muito bem obrigada
E (claro!) pronta para tomar um novo porre
Porque existem inúmeros vinhos de safras diferentes


Os poetas Luzia e Fernando Abreu (mãe e filho) no Peperoncini



O Fernando, poeta apaixonado, faz de sua esposa Adriana a sustentação de todo o seu sentimento e criatividade, sempre propositadamente maiores que as palavras.
Encomendou –me rosas, que por motivos impedidores não puderam se fazer presentes. Porém, suas declarações à esposa não perderam em verdade nem em profundidade, pois as rosas ausentes ressurgiram vermelhas e aveludadas na beleza do seu romantismo. Nos vasos da Adriana, aquelas, com certeza, não murcharão.

Entre o que preciso e o que tenho,
você é o que tenho mas não posso.
É o que preciso e não entendo.
Se fico na sua falta, sinto a sua ausência,
em sua presença não penso mais,
vivo você!
E cada instante de sua existência,
quero-a sempre diferente,
mais do que nunca.
O que sinto é realmente inevitável,
e a sua reação é simultaneamente aparente.
Se nessas horas o amor muda de nome
Não é por falta de amor,
É só uma conseqüência.
E o que venhamos fazer
ou deixar de fazer
é exclusivamente entre mim e você!



Nunca soube muito bem definir o que é o amor.
Aliás, acho até que nem tem definição:
O amor é para ser sentido,
não aprisionado entre algumas meias palavras.
Se inventasse uma palavra
para expressar ou traduzir  o que é o amor,
ainda assim não diria,
pois o dizer ou não dizer,
não é o mais importante
e nem o menos.
É preciso muito mais que simples palavras,
Para explicar e definir o que sinto.
Te dizer eu te amo,
não é nada perto do quanto te quero,
Deixo então você livre
para pensar e alcançar;
Entender e enxergar
o quanto amo você!

                         Fernando Abreu Ramos


Dizer que você é bonita
não é necessário,
tão pouco o suficiente.
Sua beleza é tão definida
e, ao mesmo tempo,
tão sem explicação,
que as palavras me faltam
aumentando assim
o sentimento e o desejo,
os quais o poeta tanto necessita.
Olhar para você e contemplá-la
é puramente prazer,
mas o que fazer
se não é o bastante?
Se tudo me faltar,
mesmo com o desgosto de não tê-la,
ainda assim estarei feliz
pelo prazer que tive em conhecê-la.

Fernando Abreu Ramos











Entre o que preciso e o que tenho,
você é que tenho mas não posso.
É o que preciso mas não entendo.
Se fico na sua falta, sinto a sua ausência;
em sua presença não penso mais,
vivo você!
E cada instante de sua existência
Quero-a sempre, diferente,
mais do que nunca.
O que sinto é realmente inevitável
e a sua reação é simultaneamente aparente.
Se nessas horas o amor muda o nome,
não é por falta de amor,
é só uma conseqüência.
E o que venhamos fazer
Ou deixar de fazer
é, exclusivamente, entre mim e você!

Fernando Abreu Ramos


  Luzia Abreu Ramos - 2010



Meus cabelos embranquecidos.
Meu corpo, há muito esquecido.
Só mesmo pulsa meu coração,
quisera saber por que razão?
A pele seca, enfraquecida,
que pouco a pouco dilacera.
Os olhos, sem brilho algum,
só mesmo a morte espera!
Eu, que já fui bela mulher
desfolhava sempre a flor
do bem ou mal-me-quer.
Sempre aos meus pés, um novo amor!
Brincava com todas as estações
motivando muitas paixões.
Relembro de tudo o que vivi
e choro, sabendo o que perdi!
O tempo é implacável
tirou minha beleza
basta olhar-me no espelho
e ter esta certeza!
Rugas profundas
olhar perdido
lançado ao infinito
sem nenhum sentido!
Nenhuma estação me tem por acolhida,
pois já não sirvo, estou envelhecida.
Num simples aceno à vida,
uma lágrima, rola perdida
dizendo ser minha despedida!...



A mãe, Luzia, traz em seus versos maduros toda experiência sentimental de uma mulher que sofre e ama sempre com um amor que suplanta o sofrimento.
Ler os versos da poetisa é como estar com ela. Quem a conhece sabe que Luzia é, em matéria, a sua própria poesia.

"VIVENDO DE SAUDADE


O tempo passa e tudo muda,
algo para melhor ou pior.
Tudo se modifica,
Só o meu amor é sempre maior!
Nada consegue atingi-lo,
parece uma força estranha,
onde, às vezes, consegue feri-lo,
mas sem atingir suas entranhas!
Passo o ano por todas as estações,
não sei qual me faz mais maldade
ou qual me traz a felicidade
de, pelo menos,
viver de saudade!”

Último abraço 2010
Luzia Abreu ramos


Como é difícil viver sem você!
Do pouco que pedi, só ouvi  NÃO.
Palavras duras, sem emoção,
só magoaram meu coração!
Você fez a cruel escolha,
a de me abandonar.
Sequer vejo a vida passar,
na esperança de te ver voltar!
Há pouco dias, o vi passar,
fingiu nem me notar,
mas sei que no fundo
temos amor para nos dar!
Já estou velha, enfraquecida,
precisando dos seus cuidado.
Se me pedir, eu faço:
junto os meus trapos
nem que seja,
para o nosso último abraço!

Luzia Abreu Ramos - 2009
Amor proibido

Da janela, olho pro céu,
nuvens escuras, ouço trovões.
Não tenho medo, mas fecho a janela
pois sinto grandes emoções!
A saudade a corroer meu peito
que louca de paixão deliro,
te chamo num sussurro,
busco seu vulto no escuro!
Este amor profundo
que me foi proibido de viver,
só vai aumentando no fundo,
o desejo de ficar com você!
Centenário Tamarindeiro 2007
    ( Luzia Abreu Ramos )

Centenário tamarindeiro,
que a muitos já serviu
e a tantos encontros viu!
Já foi ponto de boêmios violinistas.
Hoje abriga os motociclistas!
Poucos reconhecem o seu valor
mas como o conheço bem,
sei as qualidades que tem!
Ajudei a sanar sua dor,
pois pelos cupins, foi ferido.
Grande foi a nossa jornada,
porém por nós curado!
Tamarindeiro amigo...
Servindo-se também de abrigo,
para os que amam  escondidos!
Majestoso em sua altura,
já viu pessoas nuas
sob o clarão da lua
por  certo, outros vultos
a vagar pelas ruas!
Já te puseram fogo,
pessoas de nossa cidade,
pobres de espírito
se quer ouvirão seu choro
nem respeitaram sua idade!
Entre choros e gritos
de lamentos e perguntas:
Por que querem o meu fim?
Se sempre fui  tão  querido
e a tantos ainda abrigo?
Sempre ofereci sombra e frutos,
que mais querem de mim?...
Sempre frondoso, calado,
discreto, amigo do peito.
Guarda consigo segredos.
Mesmo ferido, amargurado,
Nunca demonstrou medo!...
Formoso, recuperado,
com sua magia contagiante,
abriga também estudantes!
Como deve lamentar,
ao ver debaixo de ti,
jovens drogados,
sendo por você abrigados!
Matem firmes suas raízes,
Na esperança que esses jovens perdidos
possam ser por Deus assistidos,
voltando a serem felizes!...
Cuide dos vovôs do asfalto,
que com amor te aquecem,
pois eles cuidam também
de seres que padecem,
pessoas que desconhecem!...
Sobreviveu ao vento forte.
Resistiu a muitas tempestades.
Lutou contra invernos rigorosos,
sendo um centenário de sorte!
Inspiração de poetas,
como hoje a mim fazes.
Que continue sempre companheiro,
confidente, centenário tamarindeiro!
    Encontro com Jesus. Setembro 2009
            Luzia Abreu Ramos

Por pouca fé e fraqueza,
quase sempre estou a errar
mesmo querendo acertar,
vou seguindo na incerteza,
deste eterno caminhar!
Nos cigarros me entorpeço,
no pecado me embriago.
Parece um caminho sem fim,
nem eu, tenho pena de mim!
Em todo este meu tropeço,
estou pagando um alto preço.
Assim, eu vou caminhando,
batucando o meu enredo,
eu vou me desesperando...
Nos caminhos tortuosos
desta atribulada vida,  dizem:
Alguém Especial te espera,
e a luz que Dele irradia,
te envolverá numa esfera,
penetrará em tua alma,
e  poderás ser salva!
SILÊNCIO! ...
Ouço uma voz sussurrar:

Por que vagas, chorando neste mundo?
Segure minha mão, não te abandonarei,
basta  crer  e  ao meu lado vais ficar.
Em mim, podes confiar! Eu sou Jesus!
A quem merecer, farei  jus...
Seus pecados estão perdoados.
Terás vida em abundância,
fui pregado numa cruz
pra mostrar sua importância!

Na presença do Salvador,
Senti vergonha,  clamei:
Sou uma filha perdida,
sem juízo de valor.
Curvei, então, meus joelhos
e disse de olhos vermelhos:
Serei forte, meu Senhor.
És a luz que me alumia,
transformando a noite em dia
que sobre mim principia!
Por Ti, Darei  Minha  Vida
e todo o meu amor.
Estou livre do espinho
que me causou tanta dor.
Varreu de mim a tristeza,
e toda a  minha incerteza...
Enquanto vida me der,
ainda que eu muito ande a pé
farei tudo o que puder
pra levar por onde eu for
meu Cristo, Nosso Senhor!
Eu e o Vento
  Luzia Abreu ramos - 2010


O vento que açoita o meu corpo,
às vezes queima, fere...
È o mesmo que me pede:
Neste lugar, amanhã, me espere!
O vento que açoita o meu corpo,
chega às vezes, acanhado
pois é ele que leva meu recado,
bem distante ao meu amado!
O vento que açoita o meu corpo,
quase sempre, vem sem medo
sussurrando em meus ouvidos
o que não posso dizer, é segredo!
O vento que açoita o meu corpo,
vem também em calmaria.
Brinca, diverte-se comigo
dizendo se fosse homem, me amaria!
O vento que açoita o meu corpo,
chega dizendo que me namora.
Sem despedidas vai embora,
dizendo que não se demora!
O vento que açoita o meu corpo
sem forças, velho em desamor,
Já nada sente, e cai
desfalecido, sem cor!
Eu queria 2010
  Luzia Abreu Ramos

Eu queria poder
ser a felicidade
e, dentro de você morar e
ver no seu olhar
a tristeza perdida,
o sorriso de menino
que existe em você!
Eu queria poder
ser a felicidade e
nunca de você me afastar,
para não te ver chorar e
jogar por onde for
pétalas de flores coloridas
de paz, de harmonia e
ver em seu rosto, só alegria!
Eu queria poder
ser a felicidade e
te dar todo amor que me pede e
juntos trilharmos o mesmo caminho,
não te ver mais tão perdido, sozinho!
 Eu queria poder
 ser a felicidade e
te amparar, proteger,
abrir meus braços
entre eles você adormecer!
Só que também procuro
essa tal felicidade...
A tive por tão pouco tempo,
que se transformou em saudade!




O meu tempo é “você”

Luzia Abreu Ramos
      

Em cada segundo, uma saudade.
Guardo no peito, uma paixão sem fim...
Tu demoras tanto, quero te ver,
para matar esta ansiedade em mim!
Na vida, tudo tem seu tempo certo:
Tempo de chorar, amar, plantar, colher...
Porém, o tempo que mais desejo,
É o tempo de sempre ter “você”
 


Último abraço 2010
Luzia Abreu ramos


Como é difícil viver sem você!
Do pouco que pedi, só ouvi  NÃO.
Palavras duras, sem emoção,
só magoaram meu coração!
Você fez a cruel escolha,
a de me abandonar.
Sequer vejo a vida passar,
na esperança de te ver voltar!
Há pouco dias, o vi passar,
fingiu nem me notar,
mas sei que no fundo
temos amor para nos dar!
Já estou velha, enfraquecida,
precisando dos seus cuidado.
Se me pedir, eu faço:
junto os meus trapos
nem que seja,
para o nosso último abraço!
CIDADE POEMA - 2007
      Luzia Abreu Ramos

Cidade  Poema , terra de amigos.
São Fidélis está sempre feliz.
Demonstra toda sua ternura
de braços abertos, sobre a matriz !

Por aqui, quem passa se encanta ,
com o rio que corre manso ,
com São Fidélis ,
nosso padroeiro santo !

Com suas ruas bem traçadas
ainda que pelo povo, mal cuidadas
mesmo assim, por nossa cidade
muita gente fica fascinada!

Cidade poema, pequena
Tem seus encantos mil.
Cidade poema, pequena
não há outra igual no Brasil!

Cidade poema, pequena
É minha terra natal.
Nasci e aqui morrerei
Meu berço, meu descanso final!




Folhas e Sementes, perdidas
     Luzia Abreu Ramos – Setembro de 2009

Em alguns momentos de sua existência ,
a árvore sente-se como se nua .
Já velha, luta com persistência
envergonha-se despida à luz da lua !
Mas , mantém forte suas raízes ,
não importando, se pelo outono foi traída ,
ao ver no chão, suas folhas caídas
ou , se simplesmente , folhas perdidas!...
Das folhas que caem e a árvore desnuda
e ao duro chão se misturam
dando ao que o solo precisa
e  as suas sementes adubam !
Não podem ser folhas e sementes perdidas,
resto do nada , sem nenhum valor ,
pois logo a árvore que chora sentida,
verá novas folhas brotarem com amor !
Portanto , a árvore deixou sua herança:
Junto com as folhas caíram sementes
dando-nos a eterna esperança
que de folhas e sementes perdidas,
outras árvores frutificarão novamente !



Pão e Circo
Luzia Abreu Ramos  - 2008


No circo da vida
a tenda é o amor
que cobre a tristeza
de quem disfarça sua dor!
No circo da vida,
no picadeiro sempre estou.
Cara pintada, sorrisos
trajes esquisitos, lá vou eu!
Dou cambalhotas, faço graça,
abaixo a calça!
No circo da vida,
escondo minha carcaça!
Aplausos, gritos,
platéia de pé:
E o palhaço, quem é?
Silêncio! Ele na lona cai...
Entre vaias o público sai, e
ninguém socorrê-lo vai!...
Recobra os sentidos,
nada a sua volta.
Em meio ao espanto
a Deus clama.
Por seu público chama...
Pálido, moribundo,
levanta o palhaço.
As luzes se acendem.
São luzes divinas
que sua preces atendem.
Com medo, ele ora
E a Ele implora:
Léve-me para sua glória!
De palhaço virei chacota
comigo, ninguém se importa.
Baixinho ele chora...
E as lágrimas que caem,
deslizando em sua máscara,
vão limpando a pintura
que escondia sua cara!
Alégre-se, disse-lhe alguém:
Toda sua desgraça
ordeno que esqueça,
não quero mais que padeça,
nem que ande mais a ermo,
deves sorrir, agora para si mesmo!
As luzes se foram e
o circo da vida, por covardia,
perde sua alegria,
pois o palhaço parte.
Ouve-se uma melodia...
E de falsos sorrisos,
se liberta o palhaço,
levado por Jesus
entre seus Braços!
 




 










RIO DO COLÉGIO
 Luzia Abreu Ramos
Rio de águas claras .
Cachoeiras aconchegantes .
Rio dos adolescentes ,
e também dos amantes !
Rio dos namorados ,
dos desquitados , divorciados .
Casados , velhos e crianças ,
e dos aposentados !

Rio dos apaixonados ,
pela pureza do seu lugar .
Pelo verde que cobre suas margens ,
pelas árvores que te sombreiam ,
por suas noites de luar !
Pelos pássaros que cantam ,
os mais variados cânticos ,
e sua beleza ainda mais encanta !

Rio que já faz parte ,
do turismo de São Fidélis,
nossa eterna Cidade Poema,
que guarda tantos segredos,
e manso, corre sem medo !
Rio que faz renascer ,
uma vontade de viver  ,
onde encontrei lazer,
e quando chegar minha hora ,
quero em seus braços morrer !

Teu olhar 2010

  Luzia Abreu Ramos.


Teu olhar que me incendeia
fazendo com que eu me sinta
presa em uma cadeia
uma verdadeira prisioneira!
Se fecho meus olhos
você cala minha boca
sufocando-me com um beijo,
deixando-me ainda mais louca!
Homem que sempre quis.
Em sedutor amante te fiz
sendo tudo que da vida desejei.
Numa simples rua te encontrei!
fecho meus olhos
revivendo o que senti
meu corpo se arrepia
querendo somente a ti!
Busco alguma compreensão
que me traga a razão
mas,  encontro nada senão
você no meu coração!


  Luzia Abreu Ramos - 2010



Meus cabelos embranquecidos.
Meu corpo, há muito esquecido.
Só mesmo pulsa meu coração,
quisera saber por que razão?
A pele seca, enfraquecida,
que pouco a pouco dilacera.
Os olhos, sem brilho algum,
só mesmo a morte espera!
Eu, que já fui bela mulher
desfolhava sempre a flor
do bem ou mal-me-quer.
Sempre aos meus pés, um novo amor!
Brincava com todas as estações
motivando muitas paixões.
Relembro de tudo o que vivi
e choro, sabendo o que perdi!
O tempo é implacável
tirou minha beleza
basta olhar-me no espelho
e ter esta certeza!
Rugas profundas
olhar perdido
lançado ao infinito
sem nenhum sentido!
Nenhuma estação me tem por acolhida,
pois já não sirvo, estou envelhecida.
Num simples aceno à vida,
uma lágrima, rola perdida
dizendo ser minha despedida!...